Não acho que tudo seja relativo. Tem coisas que não são. Por exemplo, os valores. Não dá pra relativizar valores e princípios. Ou você acredita naquilo, ou esqueça, deixa de ser um valor.

 

Aliás, se tudo fosse relativo, o mundo seria um caos em carne viva. Já pensou? Não haveria certezas (há muito poucas, mas há), nem faróis, nem estradas... tudo seria uma grande encruzilhada com interrogações histéricas gritando a beira do caminho.

 

Mas, se por um lado nem tudo é relativo, por outro algumas coisas são. E como são.

 

Por exemplo, o entardecer. Pra que coisa mais relativa que o entardecer?

 

O momento do crepúsculo é uma confusão só. Nem dia, nem noite. Nem sol, nem lua. Nem calor, nem frio. É um momento ambíguo, relativo, dois em um, onde noite e dia deixam as diferenças de lado e se tornam um só: o CREPÚSCULO.  

 

Não dá pra ser radical com uma coisa assim. Sempre haverá argumentos a serem reconsiderados, posturas a serem revistas, opiniões a serem substituídas... o crepúsculo, eu diria, é relativo em sua essência.

 

O bicho ornitorrinco é outro que transpira relatividade. Ele põe ovos, mas não é pássaro. É mamífero, mas tem bico. Tem pêlos por todo o corpo, mas vive debaixo d´água. Pô, qual é a desse bicho, afinal? A desse bicho é a relatividade.

 

Ele é uma confluência absurda de biotipos e habitats, um exemplo clássico de um bicho que é dois em um. Ou três em um. Ou sei lá quantos em um. É relativo, pronto!

 

E assim segue a vida, com poucas certezas, mas muita relatividade.

 

Não acho que devamos condenar um ou outro. Cada um tem o seu valor. Há quem pregue a relativização das certezas, sob o argumento de que “certezas são imposições contra a liberdade”. Não acredito nisso. Pra mim, certezas libertam, especialmente se forem certezas próprias, conscientes, sem interferências de terceiros e frutos de uma auto-descoberta.  

 

Mas reconheço o valor da dúvida também. É a dúvida, e não a certeza, que nos incomoda, que nos força a sair do lugar, a gritar, a espernear, a crescer, a fazer achados... por isso, creio que a certeza é cria da dúvida.

 

E se assim é, a relatividade, quem diria, é a mãe de todas as certezas.